O dia 2 de abril de 2025 será lembrado pelo Dia da Libertação, como o chamou o presidente dos EUA, ou como o dia em que mudaram as regras do comércio internacional. Entram em vigor tarifas de 25% sobre as importações de automóveis, mais 25% sobre produtos de países que compram petróleo venezuelano, outro 25% sobre alumínio e aço, e tarifas recíprocas para países com déficit comercial com os EUA. As firmas de investimento, aguardando os outros anúncios que Donald Trump fará, analisam e estudam qual será o impacto dessa política comercial e como ela redesenha o mapa das oportunidades de investimento.
Sem dúvida, a primeira conclusão é que as tarifas afetarão as previsões de crescimento global e podem gerar mais inflação. Também está claro que o primeiro trimestre de 2025 fechou com uma forte volatilidade nos mercados financeiros, impulsionada justamente pela agressiva política comercial da administração Trump.
Onde colocar o foco
Na opinião de Oliver Blackbourn, gestor de carteiras da Janus Henderson, e Adam Hetts, diretor global de ativos múltiplos da Janus Henderson, esse “Dia da Libertação” pode ou não liberar os mercados da tensão que enfrentam com relação à política comercial dos EUA. “Investidores e diretores de empresas não gostam da incerteza, e a forma pouco sistemática e pouco confiável com que as tarifas estão sendo anunciadas está criando muita incerteza”, apontam.
Como indicam, o relevante neste dia é que parece que será imposta uma ampla gama de tarifas, mas tudo, desde a escala até o momento e a variabilidade entre os países, ainda parece um pouco incerto. “As estimativas sobre qual será o tipo médio de tarifa oscilam entre alguns pontos percentuais em cenários moderados e níveis de dois dígitos em cenários mais contundentes. Também não está claro até que ponto as tarifas são uma estratégia de negociação para alcançar algum outro objetivo ou se são o objetivo final. O que parece menos incerto é que as tarifas são, sem muitas exceções, provavelmente prejudiciais para o crescimento econômico, os consumidores e os mercados”, argumentam ambos os especialistas da Janus Henderson.
Como bem lembra Tom Harvey, especialista sênior em ações da Aberdeen Investments, não podemos ignorar a resposta dos países afetados pelas tarifas, pois eles também desempenharam um papel na configuração do panorama competitivo.
“Países como a China colocaram em seu alvo as exportações americanas, afetando setores como agricultura e automóveis. Enquanto alguns exportadores de pequena capitalização enfrentam ventos contrários, outros se adaptaram com sucesso para mercados alternativos. Nesse sentido, acreditamos que as empresas que puderem se adaptar à dinâmica comercial em mudança e diversificar sua base de clientes estarão melhor posicionadas para prosperar”, lembra Harvey.
Para Mark Haefele, diretor de Investimentos do UBS Global Wealth Management, as tarifas recíprocas desta quarta-feira podem elevar a tarifa efetiva em mais 4 pontos percentuais. “Qualquer coisa além disso poderia levar as tarifas além de um ponto ótimo de arrecadação de receitas, na nossa opinião. A nível global, o risco de que as altas tarifas perturbem o comércio e a atividade econômica poderia compensar qualquer aumento na receita federal dos EUA que a administração Trump pretenda utilizar para promover políticas internas”, acrescenta.
Além disso, ele acredita que o sentimento dos investidores continua instável diante da imposição prevista de novas tarifas pela administração Trump. “Embora acreditamos que é provável que os mercados continuem voláteis no curto prazo, ainda esperamos que o mercado de ações dos EUA termine o ano em alta”, esclarece Haefele.
Mudança nas perspectivas de crescimento
Segundo a equipe de investimento da Portocolom AV, a conclusão a que os investidores parecem estar chegando é que, diante de tanto ruído gerado pelo governo, as previsões de crescimento econômico serão afetadas e já há quem aposte novamente na possibilidade de os Estados Unidos entrarem em recessão.
“Os mercados começaram a semana com quedas, dando continuidade à tendência vista nas sessões anteriores, quando o S&P 500 caiu 1,53%, encerrando em 5.580,94 pontos, enquanto o setor tecnológico sofreu mais, com o Nasdaq 100 fechando em 19.281,40 pontos, ou 2,39% a menos. Na Europa, as quedas foram semelhantes, com o Euro Stoxx 50 caindo 1,65% e o Ibex 35 destacando-se com um pequeno retrocesso de 0,36%”, destacam.
Além disso, para os especialistas da Portocolom AM, o pioramento das expectativas econômicas novamente provoca uma mudança nas previsões sobre as decisões que os bancos centrais tomarão, que neste momento indicam três quedas em 2025 tanto para o BCE quanto para o Fed. Isso aliviou levemente as taxas de juros dos títulos do governo, que fecharam estáveis para o Treasury a 10 anos, com rentabilidade de 4,25%. O Bund e o Bono caíram 4 pontos base, fechando em 2,73% e 3,36%, respectivamente”, acrescentam.
Segundo Felipe Mendoza, analista de Mercados Financeiros da ATFX LATAM, nesse contexto, o Goldman Sachs ajustou consideravelmente sua perspectiva sobre o S&P 500, projetando uma queda inicial até os 5.300 pontos nos próximos três meses, motivada pelo aumento dos riscos inflacionários e o impacto das políticas comerciais. “No entanto, prevê uma recuperação gradual até os 5.700 pontos em nove meses e uma estabilização ao redor dos 5.900 pontos em um horizonte de um ano. A Yardeni Research também reduziu seus objetivos para o índice, situando-os entre 5.100 e 6.000 pontos para este ano, com projeção de fechamento em torno dos 6.000 pontos em 2025 e 7.000 pontos para 2026”, comenta.
“Dependendo de sua gravidade, as novas tarifas poderiam minar esse cenário relativamente benigno. Como qualquer aumento de impostos, um aumento nas tarifas é um choque de demanda. Reduz a renda global da economia (o que é conhecido como efeito de renda) e distorce a demanda ao reduzir o consumo de determinados bens e aumentar o de outros (o efeito substituição), resultando em modelos de produção e padrões de consumo ineficientes. Em resumo, a economia sai perdendo”, acrescenta Blerina Uruçi, economista-chefe da T. Rowe Price.
Além disso, Uruçi aponta que a economia dos EUA também tem “pouco a ganhar” com essa política tarifária. “Há uma razão muito boa para os Estados Unidos importarem bens de todo o mundo: seria ineficaz e muito mais caro produzir internamente tudo o que o país precisa. Seria ineficiente e muito mais caro produzir internamente tudo o que o país necessita. Além disso, a relativa força da economia americana em comparação com o resto do mundo significa que os americanos podem se dar ao luxo de comprar mais produtos estrangeiros. Se Trump tiver sucesso e conseguir cumprir sua promessa de aumentar ainda mais a renda per capita do país, o déficit comercial dos EUA pode aumentar ainda mais, já que os americanos comprariam ainda mais bens do exterior”, explica.
Um estímulo para os outros mercados?
Se olharmos o outro lado da moeda, também podemos encontrar uma interpretação positiva dessa situação. Na opinião de Michel Saugné, CIO da La Financière de l’Échiquier (LFDE), uma vez superado este episódio de “implantação”, será mais fácil projetar o futuro de acordo com a nova ordem estabelecida, e a boa notícia é o catalisador positivo que Trump representa, por exemplo, para a construção europeia.
“Por enquanto, assistimos a um reequilíbrio dos fluxos de capitais entre os mercados dos EUA e o resto do mundo. Isso era esperado, dado o ponto extremo de partida no final do ano passado: uma polarização sem precedentes dos investidores no mercado dos EUA e apenas nas suas grandes empresas de tecnologia. No campo da política comercial, o presidente Trump poderia considerar a aplicação de novos Acordos de Plaza (1985). Este projeto, comumente conhecido como os ‘Acordos de Mar-a-Lago’, reviveria a ideia dos Acordos de Plaza de organizar uma depreciação significativa do dólar para combater um desequilíbrio excessivo da balança comercial dos EUA, principalmente com a China e a Europa”, argumenta Saugné.
Quanto aos mercados emergentes, ele considera que, se o objetivo de Trump for desvalorizar significativamente o dólar e as taxas de juros dos EUA, isso seria bom para todos os países fortemente endividados em moeda americana (menor custo da dívida) e permitiria uma redistribuição dos fluxos de capital para suas economias (rendimentos em moeda local mais atraentes).
“Na nossa opinião, os maiores riscos nesta situação serão, como sempre, uma maior desaceleração da economia chinesa, o aumento dos riscos geopolíticos (Taiwan…) e uma volatilidade excessiva das moedas. Por outro lado, as oportunidades estarão em avaliações atraentes, queda do dólar e das taxas de juros dos EUA, o alto nível tecnológico alcançado por alguns países e um possível aumento da demanda por commodities”, afirma o CIO da La Financière de l’Échiquier.