Outra temporada de seminários de investimento chegou ao fim em Santiago do Chile. E a temática transversal que costurou as apresentações também esteve presente no último grande evento da programação de março: o SURA Advisory Forum, organizado pela SURA Investments, que teve o ex-presidente Eduardo Frei Ruiz-Tagle como protagonista.
Intitulada “Chile em prospectiva: o desafio de crescer em um contexto de reordenamento global”, a instância reuniu a indústria local no tradicional cenário dos seminários santiaguinos, o salão de conferências do hotel W, na capital. Ali, entre as perguntas centrais que serviram como eixo principal, destacaram-se duas: por que o país andino deixou de crescer? E como pode voltar a fazê-lo?
Para analisar essa questão, a SURA convidou um dos protagonistas do crescimento que o Chile viveu nos anos 90, uma época que agora os agentes do mercado lembram com nostalgia como sendo dourada. Frei esteve à frente do país entre março de 1994 e março de 2000 e, segundo comentou no evento deste ano, a chave do sucesso desse período foi a liderança política e a visão estratégica.
Atualmente, o político vê o país austral em uma situação repleta de desafios, onde é necessário fazer mudanças em diversas frentes para retomar o crescimento.
O que está faltando, segundo Frei
O ex-presidente Frei Ruiz-Tagle enfatizou que o Chile esteve à beira do desenvolvimento econômico, mas não conseguiu dar o salto. Parte do problema, segundo ele, é que a política já não consegue chegar a acordos e falta um projeto nacional.
Como melhorar a situação do país? Para o ex-mandatário, um dos principais passos a seguir é eliminar o excesso de burocracia na concessão de permissões para projetos de investimento – o fenômeno conhecido como “permisologia” –, além de promover o trabalho conjunto entre o setor público e o privado e realizar os investimentos necessários em áreas como energia e infraestrutura. “Precisamos de um novo modelo regulatório simples, claro, ágil e previsível”, afirmou.
Nesse sentido, ele destacou dois fenômenos que afetam o investimento. Por um lado, Frei vê um “ambientalismo radical” no país e afirma que algumas empresas – como as do setor de salmonicultura – foram “demonizadas” e “perseguidas”, apesar de o comércio exterior representar 75% do PIB do Chile.
“Se queremos ser um país desenvolvido, temos que exportar mais”, disse, defendendo um modelo multiexportador. E, em um contexto em que a América Latina não ocupa um papel de destaque no cenário global e o Chile não possui laços comerciais particularmente estreitos com seus vizinhos, o ex-presidente recomenda “nos abrirmos para o mundo”. O principal objetivo, segundo ele, deveria ser a Índia.
Frei também abordou sua área de atuação: a política. “Aqui não temos partidos políticos. Temos pequenas empresas políticas”, criticou, acrescentando que é necessária uma reforma no sistema político. Ele ressaltou a necessidade de superar a fragmentação política – em um momento em que a eleição presidencial de novembro já conta com mais de 100 candidatos independentes –, recuperar a governabilidade e evitar “a armadilha do populismo”.
Impressões sobre o país
Para complementar a análise de Frei, a SURA Investments organizou um painel de especialistas com a economista Jeannette von Wolfersdorff, o economista Sergio Urzúa e o sociólogo Max Colodro, que apresentaram suas próprias recomendações para a economia nacional.
Von Wolfersdorff, membro do Conselho Fiscal Autônomo, alertou que o Estado não acompanhou a complexidade crescente da economia e que é necessário um marco regulatório adequado à realidade econômica atual. “Temos problemas muito mais estruturais e sistêmicos”, afirmou.
Nesse sentido, a especialista alertou sobre o perigo da nostalgia. “Acho um erro ficar lamentando os anos 90. O mundo é diferente agora”, disse. Ela também destacou que não se deve confundir regulação com burocracia no debate sobre permisologia, criticando o discurso a favor da desregulamentação que tem surgido em vários países.
Por sua vez, Urzúa, doutor em economia pela Universidade de Chicago e professor da Universidade de Maryland, afirmou que o Chile “terá um jogo decisivo” em 2025. Para sair da armadilha da renda média, é essencial estabelecer um programa nacional.
O economista apontou a criminalidade, a burocracia estatal – que vai além da questão das permissões – e o sistema político como problemas estruturais do país. Isso, segundo ele, cria “um sistema de incentivos, em todos os níveis, que mantém o país estagnado”. Além disso, destacou uma diferença geracional significativa, com uma “desigualdade entre gerações” que reflete jovens com um histórico de crescimento na juventude e expectativas muito diferentes das anteriores.
Colodro, doutor em filosofia e analista político, enfatizou que “estamos vivendo um momento muito particular da história global”, com crises nos Estados nacionais e na democracia, causadas principalmente pela polarização. Nesse contexto, ele destacou que o Chile “precisa chegar a acordos”, com pactos de longo prazo, realistas e baseados em uma visão comum.
O que pensa a SURA
Além das palavras de boas-vindas de Pablo Urzúa, Country Manager para o Chile da SURA Investments, a visão da empresa de investimentos foi apresentada por César Cuervo, CIO da matriz colombiana.
O executivo destacou as chaves para lidar com o ambiente de mercado em transformação. Em primeiro lugar, mencionou a situação dos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump. Nesse caso, internamente, a SURA batizou como “efeito Red Bull” o pico de capital político gerado pela agenda agressiva do país, algo que a empresa não considera sustentável no longo prazo.
“Estamos diante de uma mudança de paradigma que não víamos desde o fim da Guerra Fria”, disse o CIO, ressaltando que os EUA já não se guiam mais por “princípios de ocidentalidade”, mas operam como uma empresa buscando maximizar seus lucros.
Diante desse cenário global volátil, Cuervo afirmou que a economia local “deve servir como contrapeso” à incerteza internacional, garantindo uma institucionalidade sólida.